Irwin Allen

“Irwin Allen era um homem de negócio incrível que tinha queda por arte dramática e estava muito além de seu tempo…”
(Lee Meriweather, a Dra. Ann McGregor de O Túnel do Tempo)

A década de 1960 foi marcada por inúmeras séries de ficção-científica que hoje são consideradas clássicas como Jornada nas Estrelas, Os Invasores, Quinta Dimensão e por quatros obras do produtor Irwin Allen: Viagem ao Fundo do Mar, Perdidos no Espaço, O Túnel do Tempo e Terra de Gigantes. Falaremos nesta matéria sobre o responsável por estas quatro imortais séries.

O diretor e produtor Irwin Allen nasceu em New York no dia 12/06/1916 (notem que esta data é a que ocorre o primeiro episódio de Terra de Gigantes, com o voo fatídico da nave Sprindrift – 12/06/1983).

Irwin Allen

Allen estudou jornalismo e publicidade na Universidade de Columbia e desde sua infância foi fascinado pelo universo da aventura, fantasia e da ficção-científica, sendo voraz leitor dos livros de Jules Verne, Jonathan Swiff, Rudolf Wyss, H. G. Wells, Lewis Carrol, etc. As obras destes clássicos escritores da literatura mundial, que povoaram o imaginário do jovem Allen, iriam permear os seus trabalhos no cinema e televisão, mencionando que deles derivaram suas quatros séries clássicas: Viagem ao Fundo do Mar (“20 Mil Léguas Submarinas”, Jules Verne), Perdidos no Espaço (“A Família Robinson”, Rudolf Wyss), O Túnel do Tempo (“A Máquina do Tempo”, H. G. Wells) e Terra de Gigantes (“As Viagens de Gulliver”, Jonatham Swiff).

O nova-iorquino sempre foi um homem obstinado, onde o seu ego dava limitada margem para que os companheiros de produção como atores, diretores e roteiristas, tomassem direção própria, com rara exceção dada ao personagem Dr. Smith, moldado por seu interprete, Jonathan Harris, outra personalidade com forte ego. Eis alguns toques da forte personalidade, tenacidade e controle de produção de Irwin Allen.

Os atores Richard Basehart e David Hedison não puderam tornar os seus personagens mais humorados e humanos, menos bidimensionais. Bem que tentaram, mas Irwin Allen frequentava a sala de edição.

A persistência em contratar David Hedison para encarnar o capitão Lee B. Crane, caçando o ator que se encontrava em uma turnê pelo mundo afora (Londres, Leningrado, Moscou, Cairo) através de insistentes contatos telefônicos até que o ator aceitasse o convite. “Não sei porque, e até hoje não entendi por que Irwin Allen insistiu em me contratar”, contou David Hedison.

Não permitir que zombassem de seus personagens monstruosos e de histórias por mais bizarros que fossem, levando muitas vezes a punição, como aconteceu com Guy Williams e June Lockhart ao apresentarem mal comportamento devido ao enredo do episódio “A Revolta das Plantas” em Perdidos no Espaço.

A série Jornada nas Estrelas, obra revolucionária de Gene Roddenberry, foi preterida pela Rede CBS ante ao poder de convencimento de Allen. Só após um ano do lançamento de Perdidos no Espaço, o público pode acompanhar a saga da tripulação da nave Enterprise pela Rede NBC.

As reclamações dos roteiristas quanto a Irwin Allen trocar os diálogos por mais ação e explosões. Pode se notar bem em O Túnel do Tempo.

Irwin Allen a bordo do submarino Seaview

A mágoa e o desfecho do ator Del Monroe (o marinheiro Kowalsky) de não ter sido convidado para outros trabalhos de Allen depois de Viagem ao Fundo do Mar. Irwin Allen estimava muito Del Monroe e ficou chateado com a recusa do ator em interpretar o Inspetor Kubick de Terra de Gigantes.

Ao assistir as imagens de Irwin Allen dirigindo as cenas de ação dos longas “O Destino do Poseidon” e “Inferno na Torre”, nota-se a sua enorme energia, ego e pulso forte emanado.

Irwin Allen tornou-se órfão com 12 anos. Isto contribuiu muito para moldar a sua personalidade, ficando pouco arredio a eventos sociais e entrevistas, como informa o escritor Arthur Weiss em uma entrevista para a revista Starlog. Entretanto, estas vicissitudes da vida deram a Irwin Allen um grande tino comercial e uma visão de poucos privilegiados de estar à frente de sua época. O seu círculo de amizade era quase fechado, integrado por personalidades como o apresentador Steven Allen, o comediante Groucho Marx (co-produtor de Perdidos no Espaço, sob o pseudônimo de Van Bernard), o escritor William Welch, o figurinista Paul Zastupnevitch, o assistente de produção Al Gail, o ator Red Buttons e a esposa Sheila Mathews (Allen).

Depois de concluir a universidade, com sua tenacidade, Irwin Allen viajou para Hollywood onde trabalhou como editor de revista (Key Magazine), escritor, produtor radiofônico (estação KLAC), colunista de celebridades do cinema (Hollywood Merry-Go-Round) e dono de uma agência literária. Através desta agência, manteve contatos com várias pessoas importantes do rádio, televisão e cinema, além de representar escritores como Fanny Hurst (“Imitação da Vida”) e Ben Hecht, que escrevia frequentemente com a colaboração de Charles MacAthur.

O tempo prosseguia em sua marcha. Irwin Allen chega a grande tela com a produção de sua comédia “Isto Sim Que é Vida” (“Double Dynamite”, 1951) com Frank Sinatra e seu amigo por muitos anos, Groucho Marx. Outras produções desse início são “Trágico Destino” (“Where Danger Lives”, 1951) com Robert Mitchum e Claude Rains, além de outra comédia com Groucho Marx, “Uma Mulher em Cada Porto” (“A Girl Every Port”, 1952). Também é dessa época o filme rodado em 3D, “Dangerous Mission”. “Trágico Destino” marca a colaboração do escritor Charles Bennett com Irwin Allen. Bennett, que escreveu várias histórias para o mestre Sir Alfred Hitchcock, além de escrever roteiros de filmes para Allen, também escreveu episódios para as séries Viagem ao Fundo do Mar e Terra de Gigantes.

Com o documentário “O Mar Que Nos Cerca” (The Sea Around Us, 1953), baseado no livro de Rachel Carson (filme que mostra os avanços da oceanografia e conta com maravilhosos efeitos fotográficos), Allen recebe o Oscar de “Melhor Documentário”. O mar sempre lhe foi um fascínio e posteriormente nos trouxe a série Viagem ao Fundo do Mar.

Em 1956, Allen produz e dirige outro documentário, “O Milagre da Vida” (The Animal World), com efeitos especiais de cenas da pré-história realizados pelo mestre Ray Harryhausen. Após, “A História da Humanidade” (The Story of Mankind, 1957), que conta com um elenco estelar, entre eles Ronald Coleman (“O Espírito do Homem) e Vincent Price (“O Diabo”). Este filme marca a última aparição dos Irmãos Marx juntos na tela. Em “O Grande Circo” (The Big Circus, 1959), escrito por Irwin Allen, Charles Bennett e Irving Wallace, as características lúdicas e majestosas das produções de Allen aparecem com vigor, apesar de ter sido rodado na pequena produtora Allied Artists. Este filme marca o início da colaboração do figurinista Paul Zastupnevich, que acompanhará Allen até a sua última produção.

Nos anos 1960, Irwin Allen produz e dirige o remake do filme “O Mundo Perdido” (The Lost World) agora na Twentieth Century-Fox. Este filme traz o padrão que seria a tônica em todas as suas quatro séries clássicas, especialmente no item economia, sendo utilizadas várias cenas desta produção (footage): dinossauros, monstros, vulcanismo etc. O ano de 1961 marca o aparecimento da longa “Viagem ao Fundo do Mar” (Voyage to the Bottom of the Sea), com Peter Lorre, Michael Ansara, Barbara Eden e Joan Fontaine. No ano seguinte, Allen lançou o longa “Cinco Semanas Num Balão”, que foi um fracasso de bilheteria.

Hollywood estava mudando e a temática da grande tela estava se direcionando para as questões sociais, deixando um pouco de lado enredos de aventura, fantasia e especialmente ficção-científica. A televisão aparece como a grande opção para Irwin Allen desenvolver o seu mundo fantástico.

Em 1964, Viagem ao Fundo do Mar entra no ar estrelada por Richard Basehart e David Hedison, tendo uma jornada de quatro prósperos anos. Os episódios realizados em preto e branco, apresentando as aventuras dos tripulantes do submarino atômico Seaview, traziam temas um pouco mais sérios que os episódios coloridos das últimas temporadas, como “O Homem Lagosta”, “Os Duendes” e “A Volta do Barba Negra”. Contudo, Viagem ao Fundo do Mar se torna uma série clássica que vence o tempo, maravilhando gerações.

Chega o ano de 1965 e as famílias do mundo inteiro começam a entrar em contato com Perdidos no Espaço (Lost in Space). A série trata das aventuras da família Robinson e do piloto da nave Júpiter 2, Donald West, que são enviados para o espaço afora deixando para trás a superpovoada Terra. No episódio-piloto não exibido — “No Place to Hide” — não existiam os dois personagens que marcariam a série: o robô B9 e o Dr. Zachary Smith. Os executivos da Rede CBS acharam que seria melhor colocar um vilão (Dr. Smith) que potencializaria as histórias e que a priori iria acompanhar as aventuras dos Robinson até o sexto episódio, fato que não ocorreu devido à perspicácia de Jonathan Harris em salvar o personagem Smith da morte (corte). Um robô foi também adicionado e juntamente com o anti-herói mais amado da tevê, o Dr. Smith, se tornaram as estrelas do espetáculo. Como ocorreu com a série Viagem ao Fundo do Mar, a ênfase séria dos episódios em preto e branco cede com advento do colorido a histórias cômicas e bizarras. Esta é a contribuição da série concorrente e de humor “camp” (tão irreal que diverte) Batman. Perdidos no Espaço tem o grande mérito de trazer para o mundo de Irwin Allen o grande músico e maestro John Williams.

O Túnel do Tempo (The Time Tunnel) era um projeto ambicioso sobre viagem no tempo. Esta série de apenas 30 episódios que utilizava “footages” de antigas produções, foi estrelada por James Darren, Robert Colbert, Lee Meriwheter, Whit Bissel e John Zaremba. Uma vez foi perguntado a Paul Zastupnevich qual era a série favorita de Irwin Allen. Ele respondeu que Allen era muito parcial com O Túnel do Tempo e ficou muito desapontado com o seu fim precoce devido a queda de audiência.

Em 1967, surge a mais cara e arrojada série da televisão de então, Terra de Gigantes (Land of the Giants). O elenco encarregado de encenar nos grandes e fantásticos cenários retratando um planeta habitado por uma civilização humana de gigantes foi Gary Conway, Don Marshall, Don Matheson, Stefan Arngrim, Deanna Lund, Heather Young e Kurt Kaznar. Durante duas temporadas, os pequeninos foram perseguidos pelos gigantes de uma civilização de governo autoritário escudado pelo seu serviço de segurança, o S.I.D., comandado pelo inspetor Kubick (Kevin Hagen).

Chega a década de 1970 e Irwin Allen ganha a reputação de “Mestre dos Desastres”, com os proeminentes filmes de suspense e ação, “O Destino do Poseidon” (The Poseidon Adventure, 1972) e “Inferno na Torre” (The Towering Inferno, 1974). O elenco de ambas produções era uma galáxia e Irwin Allen recebeu o título de chefe-bombeiro honorário em 73 cidades americanas, devido a “Inferno na Torre”. Após, vieram duas séries inferiores em relação as quatro anteriores, A Família Robinson (The Swiss Family Robinson) e Código R (Code R), além dos filmes-desastres “O Enxame” (The Swarn, 1978), “O Dia em que o Mundo Acabou” (When Time Ran Out, 1980) e “O Retorno Dramático no Poseidon” (Beyond the Poseidon Adventure, 1979). Allen também transfere a sua teoria de desastres, “enquanto existirem seres humanos neste planeta, haverá tragédias na vida real; as pessoas os chamam de filmes-catástrofes, mas na realidade são filmes de grandes aventuras com elementos de tragédia e crise”, para a televisão gerando “Inundação” (Flood, 1976), “Fogo” (Fire, 1977), “Soterrados” (Cave-In, 1983), entre outros. Os seus últimos trabalhos foram a mini-série “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, 1985) e um filme atípico de suas produções anteriores, “Outrage” (1986), um drama de tribunal.

O “Jules Verne da televisão” vinha idealizando vários projetos, como a criação de seu parque de diversão temático, nova versão de Pinóquio e Perdidos no Espaço, mas, infelizmente, o seu tempo entre nós esgotou-se e faleceu no dia 02/11/1991 em Malibu, Califórnia. A notícia do falecimento de Irwin Allen foi ofuscada pela morte dias antes do produtor e criador de Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry. Com certeza, o ano de 1991 marca a partida de dois dos grandes gênios da ficção-científica da televisão.

Irwin Allen deixou um legado igualável a poucos. É só pesquisar quantos bons diretores e/ou produtores levantaram um Oscar (usando este prêmio de referência). Ele teve uma dúzia de indicações e ergueu em cinco oportunidades a estatueta muito cobiçada no meio artístico. Que sua memória seja preservada por todos os seus trabalhos e cabe aos seus admiradores espalhados pelo mundo mantê-la acesa.

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