O Túnel do Tempo

01 – Rendezvous With Yesterday (Volta ao Passado)

O episódio conta como os cientistas ficaram perdidos no tempo, tendo como primeira parada uma estada no transatlântico Titanic em 1912, pouco antes dele afundar. Outro ponto salientado durante todo o episódio é o heroísmo americano. Primeiro, a atitude de Tony ao embarcar numa máquina que transporta matéria no tempo, mas que nunca transportou seres humanos. Segundo, a boa ação de Doug ao se aventurar como segunda cobaia do equipamento, para salvar o amigo. Terceira e obviamente clara, a preocupação dos cientistas americanos em ajudar a salvar as vidas dos passageiros. Com isso podemos concluir que, além da produção de super projeto ultra-secreto, os EUA ainda contam com o heroísmo de um povo humanitário e solidário, preocupado em salvar vidas.

02 – One Way To the Moon (Viagem à Lua)

Dessa vez os cientistas vão para o futuro (1978), em um foguete rumo à Lua. O episódio é lembrado pelos seus ridículos efeitos especiais, mostrando um mesmo foguete mas em diferentes formatos. Nesse episódio, no qual os pesquisadores ao invés de viajarem ao passado, acabam chegando ao futuro, demonstra que a corrida espacial, um dos fatores mais importantes da Guerra Fria, se faz presente no enredo, nas histórias, no roteiro do projeto. Assim, não apenas no campo da ficção os cientistas viajam à Lua, mas também demonstram que o mundo pode presenciar um acontecimento deste em pouco tempo, já que a chamada “corrida espacial” se encontra a todo vapor.

03 – End of the World (O Fim do Mundo)

Nesse episódio os cientistas perdidos tentam livrar mineiros presos em 1910, mas não recebem ajuda de ninguém, pois todos na cidade pensam que o mundo vai acabar quando o cometa Halley aparece no céu como uma enorme bola de fogo. A crença no fim do mundo, que no episódio End of the world é anunciada pelo choque do cometa, toma uma direção curiosa e muito própria de uma sociedade mais afeita às coisas materiais, como a americana dos anos 1960. Apesar do aspecto religioso assumido pelos habitantes da cidade, que aguardam pelo fim, rezando e conformados com o destino previsto pela ciência então praticada, – como ressaltado logo acima – é o cientista que os convence de que novos conhecimentos não corroboravam com o fim dos tempos naquele momento e por conta do choque do cometa com a Terra. Ou seja, a ciência toma o lugar da religião, e encontra num seriado televisivo um veículo privilegiado de divulgação.

04 – The Day the Sky Fell Down (O Dia em que o Céu Desabou)

Episódio em que o Dr. Newman se encontra consigo mesmo quando criança, bem no meio do ataque japonês a Pearl Harbor de 1941. Há ainda uma rápida passagem para 1958, quando é visto o projeto do Tunel do Tempo ainda no início. Diante do impasse entre ceder às pressões americanas e manter sua política expansionista pelo Oriente, o Japão articulou o ataque à base naval americana de Pearl Harbor, em 1941, como uma forma de acabar com grande parte das forças inimigas, debilitando-os em uma contra-ofensiva em um curto espaço de tempo. Os EUA, entretanto, encontravam-se bastante preparados para a guerra que já se desenrolava pelo leste asiático e pela Europa, apesar de não terem, até o ataque de Pearl Harbor, entrado no conflito direto. Muitas especulações são levantadas acerca da “verdade sobre Pearl Harbor” questionando o quão “surpresa” o ataque japonês foi para os militares americanos.

05 – The Last Patrol (A Última Patrulha)

Episódio que se passa em 1815, durante o conflito entre norte-americanos e ingleses durante as Guerras Napoleônicas, quando os cientistas recebem ajuda de um militar britânico vindo de 1968. As tropas dos EUA foram tudo, menos triunfantes. Sofreram inúmeras derrotas… a invasão de Washington por tropas britânicas, incendiando os dois maiores símbolos políticos desta nação, respectivamente, a Casa Branca e o Capitólio, etc. Outra omissão notável do episódio diz respeito ao fato de que não há uma única participação das “pessoas de cor”, ou mesmo dos mestiços, em qualquer cena. A Louisiana fora uma área de colonização espanhola, e sob este domínio, fora erigida uma sociedade onde a mestiçagem convivera com um grande número de “escravos de cor”. As batalhas da Louisiana foram as primeiras da história militar dos Estados Unidos a terem participação de unidades de negros libertos, sendo comandados por oficiais também constituídos de ex-escravos.

06 – The Crack of Doom (O Dia do Juízo Final)

Os cientistas surgem na ilha de Krakatoa bem no dia do seu desaparecimento (1883), causado por uma das maiores erupções vulcânicas da História. As representações observadas no episódio são as seguintes: a) a do americano, manifesta na superioridade científica, pois recém-chegado à ilha, segundo seus conhecimentos e pelo cheiro do ar, o cientista americano Doug já diz que é um lugar onde deve haver vulcão; b) a do europeu, representado pelo professor inglês que está equivocado, ou distorce sua pesquisa: demonstra a nova ordem mundial, a supremacia norte-americana após a II Guerra Mundial; c) a do povo nativo visto como atrasados, ignorantes, supersticiosos por quererem jogar um ser humano na cratera do vulcão a fim de evitar a erupção.

07 – Revenge of the Gods (Presente de Grego)

Os cientistas vão parar em 1200 a.C. na Guerra de Troia e são confundidos com deuses, que ajudam Ulisses e os gregos contra os troianos. Tal episódio pode muito bem ser encaixado com o clima no qual foi produzido: aumento das tensões entre União Soviética e Estados Unidos no chamado período de “Guerra Fria”. Tendo isso em consideração, apreendemos o sentido direto do episódio: os gregos são “bons” e os troianos são “maus”, afinal, pretende-se que nossa civilização ocidental é descendente dos gregos, enquanto os soviéticos são orientais, assim como os troianos.

08 – Massacre (Massacre)

Os cientistas tentam ajudar o General Custer a escapar do massacre preparado por Cavalo Louco e Touro Sentado em 1876. Os indígenas são caracterizados como defensores de suas terras, que lutam por necessidade, não por escolha. Sitting Bull é um chefe sábio que deseja a paz e acredita na mensagem levada por Tony, enquanto Crazy Horse é retratado como um chefe enérgico que não confia em nenhum homem branco. General Custer aparece como um homem ambicioso, imerso em sonhos de glórias, impulsivo e arrogante. Essa personalidade tende quase a ser a principal causa da derrota em Little Bighorn. Já o soldado Tim McGinnis é o estereótipo do herói americano, aquele que almeja ou a grandes condecorações ou a morte no campo de batalha, legitimada pela causa expansionista de seu país. Ele aparece como um elemento de afeição, alguém com quem o americano médio possa se identificar e perceber que nem todos na sétima cavalaria são como Custer. Dr. Whitebird é outro personagem que contribui para o sentido dúbio deste episódio, que não monumentaliza nenhum dos dois lados da batalha. Apesar de ser nativo Sioux e especialista em indígenas, ele representa o índio aculturado, “civilizado”, que vive no presente conforme o sistema dos brancos.

09 – Devil’s Island (Na Ilha do Diabo)

Nesse episódio, os cientistas vão parar no presídio francês da “Ilha do Diabo” em 1895, localizado na América do Sul, onde são confundidos com prisioneiros. Assim, pode-se ver o sentido de Devil’s Island, mostrar o sistema carcerário francês como cruel e desumano – além de ser completamente injusto. Mas graças à ajuda do Túnel do Tempo, a injustiça presente no Caso Dreyfuss teve a possibilidade de ser enfatizada e reparada – de modo que, se dependesse dos franceses seria escondida, como se tal fato nunca tivesse ocorrido.

10 – Reign of Terror (Reinado do Terror)

Nesse episódio os cientistas surgem bem no meio da Revolução Francesa, quando a guilhotina já estava em pleno uso (1793). Perseguidos por um cruel antepassado do General Kirk, eles tentam ajudar a rainha Maria Antonieta e tem um breve encontro com o Tenente Napoleão Bonaparte. Tendo em vista a recente tensão entre França e Estados Unidos e o episódio apontado como causador da retirada francesa da OTAN, é possível supor que o episódio, apesar de não apresentar os chamados estereótipos recorrentes sobre os franceses entre os principais personagens, salienta a superioridade norte-americana sobre os europeus. Para exemplificar, podemos citar a maneira didática pela qual Kirk se dirige a Querque, ou mesmo o modo como Tony e Doug enganam o então Tenente Bonaparte.

11 – Secret Weapon (A Arma Secreta)

Nesse episódio os cientistas são deliberadamente enviados a 1956 em um país da Europa comunista, para descobrir os segredos de um projeto parecido com o do Túnel do Tempo. A história ambientada no episódio acima passa-se no ano de 1956 e tem como pano de fundo a Guerra Fria, o conflito político, militar e ideológico entre EUA e URSS. Alguns elementos específicos desse conflito na década de 1950 estão presentes no episódio. Como exemplo, a figura do espião americano Alexis, que se revela um agente duplo, e o cientista russo Biraki que tenta entrar nos Estados Unidos para espionar o projeto secreto do Túnel do Tempo fazem uma referência aos temores insistentemente veiculados pelo macarthismo. O período da década de 50 é marcado por um forte sentimento anticomunista nos EUA. Liderado pelo senador Joseph McCarthy, inicia-se uma campanha para denunciar os comunistas americanos infiltrados dentro do Governo Federal que passam informações secretas à espionagem soviética, comprometendo assim a segurança e a estabilidade dos Estados Unidos.

12 – The Death Trap (Armadilha Fatal)

Nesse espisódio, os cientistas conhecem, em 1861, o presidente Abraham Lincoln e tentam ajudá-lo a se livrar de uma conspiração. Os EUA dos anos 1960 tiveram o democrata John Kennedy como presidente entre 1961 e 1963. Seu governo foi marcado pela prioridade à política externa estadunidense, pela Guerra Fria, Guerra do Vietnã e pela corrida armamentista e espacial em relação à URSS. Todavia, além de tais fatos, aquele que parece ser o mais significativo em relação ao episódio analisado do Túnel do Tempo é o assassinato de Kennedy em 22.11.1963, evento que marcou profundamente boa parte da população dos EUA por ter sido transmitido ao vivo, o primeiro caso do tipo, quando o presidente fazia uma visita a Dallas, no Texas. Logo, a hipótese da narrativa do episódio ter sido influenciada pela memória recente do assassinato de Kennedy torna-se bastante plausível.

13 – The Alamo (O Álamo)

Os cientistas aparecem em 1836 e conhecem Jim Bowie, bem no dia da destruição do lendário Álamo. O episódio O Álamo, parece ter uma função clara considerando o conjunto de episódios do Túnel do Tempo. Ele reforça uma versão da história americana, ou melhor dizendo, uma visão dessa trajetória, pautada pelo heroísmo e o orgulho. A tomada do território mexicano pelos americanos é abordada no seriado de modo a justificar esse conflito e a própria anexação de um território que não lhes pertencia. A invasão de vários territórios, a submissão de populações à interferência americana foi, e ainda é, uma ação comum na história das relações dos Estados Unidos com outros países. Este episódio do Túnel do Tempo, somado a vários outros que trazem a mesma mensagem, não faz mais que justificar essas ações e a tornar de aspecto positivo entre os americanos, até mesmo fazendo com que essas ações de invasão e submissão sejam aceitas como um dever dos Estados Unidos junto aos países menos desenvolvidos.

14 – The Night of the Long Knives (A Noite da Grande Batalha)

Aqui os cientistas vão parar na Índia de 1886, na época da luta contra a colonização inglesa, e conhecem o jovem escritor Kipling. O episódio, bem como toda a série, foi produzido em meio a Guerra Fria, ao processo de descolonização da Ásia e da África e à própria independência da Índia, promovida pouco menos de 20 anos antes. Serviria o episódio para tentar mostrar que a independência em relação a uma potência imperialista seria um erro, devido ao despreparo técnico, científico e intelectual dos indianos? Seria uma forma de justificar o imperialismo? Possivelmente, sim.

15 – Invasion (Invasão)

O Dr. Philips sofre de amnésia e se torna um nazista em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial. Os eventos no episódio, portanto, são mostrados a partir do ponto de vista da hegemonia americana, com um sentido de justificação para a sua vitória, como por exemplo, quando vemos o Dr. Phillips dizer que a partir do momento da Invasão aliada é que a Alemanha começa a perder a guerra. Nas produções culturais enfatiza-se muito este ponto de vista: de que a vitória foi essencialmente norte-americana, desconsiderando que 90% dos exércitos alemães foram destruídos pelos russos antes do Dia D. Hitler ordenou a invasão da URSS em 1941 com a Operação Barbarossa, a qual fora muito mal sucedida.

16 – The Revenge of Robin Hood (Robin Hood)

Nesse episódio, os cientistas conhecem Robin Hood e seu bando, que lutam contra o rei “João sem Terra” para que o mesmo assine a célebre “Magna Carta”. Notamos um Robin Hood que “mudou de lado”. Ao invés de lutar a favor dos pobres agora ele está defendendo uma causa da elite política da época, a Magna Carta. Nota-se inclusive que durante todo o episódio o personagem usa apenas indumentárias de nobres, ao invés da comum fantasia verde de caçador. A caracterização do personagem também foge do estereótipo: os traços jovens de impetuosidade, ousadia e deboche, dão lugar a planejamento cuidadoso e discurso sóbrio.

17 – Kill Two By Two (A Morte é um Jogo)

Os cientistas vão parar numa ilha do Pacífico em 1945 e se defrontam com soldado japonês na floresta. Ponto chave de toda a série é o companheirismo de Doug e Tony. Inclusive, no primeiro episódio, Doug entra no túnel do tempo para salvar Tony, e deste modo toda a série ocorre em torno deste sentimento de companheirismo, um sempre ajudando o outro. Outro ponto forte ressaltado na série é a astúcia norte-americana. A superior inteligência dos cientistas é sempre privilegiada, o que fica evidente na fala de Doug, que aponta que os problemas psicológicos do tenente Nakamura podem ser utilizados em seu favor, o que mais à frente é explorado por Doug ao perguntar a Nakamura se ele é desertor. Também é privilegiada a valentia, representada em Tony, o que torna a dupla de cientistas perfeita do ponto de vista da indústria cultural: um emotivo e com espírito jovem e outro maduro, sensato e astuto.

18 – Visitors From Beyond the Stars (Um Mundo Além das Estrelas)

Os cientistas enfrentam alienígenas que visitaram a Terra em 1885. A ficção-científica encarrega-se, então, de transmitir as metáforas acerca do inimigo ideológico. Aqui ele é o invasor extraterreno, cruel e totalitário, que ameaça destruir nosso planeta. Esses códigos na produção norte-americana do anticomunismo (em maior ou menor grau de apelo político), é traduzido na linguagem do “outrismo”. A Humanidade (representação dos EUA) é ameaçada e ao mesmo tempo vê-se incumbida de defender seu planeta do terror do Outro.

19 – The Ghost of Nero (O Fantasma de Nero)

Durante a I Guerra Mundial, os cientistas são presos em um local assombrado pelo fantasma de Nero. De passagem, conhecem um jovem Benito Mussolini, que parece ser possuído pelo fantasma. A ligação mais forte do episódio com a conjuntura em que foi gravado fica a cargo… do fantasma de Nero. Ao possuir Mussolini ele justificou porque a Itália cairia na desgraça com o fascismo. Para um fantasma que conseguiu atrapalhar, interferir e desbancar o túnel do tempo, e antes disso, derrotar Doug numa briga de mãos limpas, não seria difícil manipular a população de um país relativamente atrasado comparativamente com outros países europeus. Assim, os italianos não teriam culpa pelo fascismo: simplesmente não tinham como resistir ao poderoso fantasma de Nero. Isso só tem sentido se pensarmos na reabilitação dos derrotados pela Segunda Guerra Mundial, italianos e, mais tarde, os japoneses, característica das produções da indústria cultural, nas décadas de 1950-70.

20 – The Walls of Jericho (As Muralhas de Jericó)

Enquanto os cientistas do Túnel do Tempo assistem céticos a participação dos viajantes do tempo no acontecimento de um milagre descrito na Bíblia: a queda das Muralhas de Jericó. Pode-se colocar a hipótese de que “O Túnel do Tempo” constrói neste capítulo uma estratégia de conciliação entre ciência e religião. O Túnel do Tempo proporcionava o entendimento de que o projeto científico, desenvolvido no episódio, comprovava a existência do relato bíblico e consequentemente a existência de Deus. Não só isso, mas também aponta para a continuidade dos EUA “como filhos do Deus vivo” apresentado pela fala de Doug a Josué no início do episódio: “Viemos de um tempo onde o seu Deus é nosso Deus”.

21 – Idol of Death (O Ídolo da Morte)

Os cientistas são enviados para a América Central em 1519, na época dos conquistadores espanhóis. A visão que o seriado apresenta para nós então é o retrato dos espanhóis como vilões e os índios como vitimas de um grande massacre que estava tendo seu início ali. Porém há um segundo posicionamento do episódio em relação aos índios, quando é mostrada a Máscara de Ouro. Diante dela os índios mostram-se supersticiosos demais, a ponto de obedecerem qualquer ordem do detentor de tal objeto.

22 – Billy The Kid (Billy The Kid)

Os cientistas conhecem o célebre bandido do velho Oeste, bem no dia de 1881 em que acontece sua célebre e mortal fuga da prisão de Lincoln. O mito do velho oeste é ressaltado pela linha conservadora da historiografia estadunidense, enaltecendo a visão vencedora dos EUA e evitando apontar as contradições desta sociedade. A colonização do oeste é encarada como um empreendimento dos vencedores que, a partir de suas glórias do passado, contribuíram para o sucesso econômico do presente. Mediante a ideia de que os EUA são os “escolhidos”, o desbravador do oeste seria o “cowboy”, homem comum, rude e simples, porém branco, anglo-saxão e protestante, que conforme adentrava as fronteiras levava consigo a civilização.

23 – Pirates of Deadman’s Island (Os Piratas da Ilha do Morto)

Os cientistas encontram piratas de 1805 que ameaçam um jovem nobre espanhol. Um deles faz uma rápida e assustadora visita à equipe do laboratório. Como aspecto recorrente ao longo de toda a série produzida por Irwin Allen, neste episódio os americanos também são considerados o povo do bem, que salvará a humanidade. Novamente esta questão do ser americano, aparece explicitamente no final do episódio quando o Dr, Berkhart salva o pequeno Armando e este novamente pergunta se o médico é americano, e entende porque ele é “bom” e “salva” as pessoas.

24 – Chase Through Time (Perseguição Pelo Tempo)

Os cientistas são enviados atrás de um bandido do futuro (Robert Duvall), e o perseguem 1 milhão de anos no futuro e, depois, 1 milhão de anos no passado. Na época que o seriado “Túnel do Tempo” foi filmado, o pensamento de que o futuro com um “progresso” inevitável e inescapável já estava em crise. Assim, vemos que é demonstrado que a humanidade não vai sempre evoluir, mas que pode mudar na medida em que o tempo passa, e nesta sociedade retratada, embora haja um certo desenvolvimento tecnológico, há uma queda da humanidade no sentido de emoções e liberdade, mostrando que esta ordem social é injusta e autoritária. Teoricamente, faz-se uma comparação com os EUA dos anos 60, deixando a questão: “De que adianta ser mais evoluído tecnologicamente se a liberdade que os estadunidenses têm não prevaleceria?” Quem assiste este episódio, sente que é muito melhor viver na sociedade da época em que foi filmado o episódio do que viver no futuro.

25 – The Death Merchant (O Mercador da Morte)

Os cientistas vão parar na Guerra Civil Americana, em 1864, cada um ficando de um lado. No meio da luta encontram o célebre pensador renascentista Maquiavel, que também está fora da sua época. Ao abordar um tema tão delicado e traumático como a Guerra Civil Americana, fundamental para construção da identidade dos Estados Unidos, este episódio procurou não se imiscuir nas questões políticas, econômicas ou ideológicas (como a escravidão, invisível no episódio) que geraram o conflito: a guerra poderia ser qualquer uma, o foco não era ela, mas sim a figura de Maquiavel e seus trejeitos perversos. Afinal, no contexto da década de 1960, não seria conveniente inserir essa discussão, haja vista as turbulências que a nação americana passava devido à Guerra do Vietnã, à instabilidade do poder presidencial, às reivindicações dos movimentos em prol dos direitos civis dos negros e a Guerra Fria. Cabe ressaltar que apesar da série estar inserida na década de sessenta, seu conteúdo não a acompanhou. Era predominantemente conservador, identificando-se mais com as ideias dos anos cinquenta, incluindo aí o Macartismo. Desta forma, O Túnel do Tempo representaria um produto típico da indústria cultural, isto é, destinado ao entretenimento e não a induzir a reflexão crítica. Pode mesmo ter se prestado ao papel de constituir-se em um artifício a mais de despolitização do povo norte-americano.

26 – Attack of the Barbarians (Marco Polo)

Os cientistas conhecem o lendário viajante Marco Polo, em 1287. O episódio não é inofensivo não pela sua própria força ou agressividade, mas pela simplicidade e inequívoca repetição de tópicos envolvendo os contatos entre a Europa-Estados Unidos- Civilização Ocidental-Cristianismo e o conjunto das civilizações à leste deste bloco identificado, essencialmente, pela sua negação. Batu é um homem instável, que não mantém seus juramentos, uma vez que traiu Kublai Khan e seus irmãos; a sensualidade “oriental” está presente em Sarit, mesmo que, neste aspecto, seja possível remeter a um elemento que supera aspectos culturais e possa ser ligado à sensualidade feminina de maneira mais abrangente; os soldados de Batu são incompetentes (os dois americanos fogem do acampamento e depois recuperam a princesa raptada sem grande resistência); os mongóis (e a tópica aqui também é mais abrangente, podendo ser “o inimigo”, seja ele nazista, comunista ou bárbaro) não dispõem de nenhuma disciplina de guerra e utilizam métodos violentos e irracionais.

27 – Merlin the Magician (Merlim, o Mágico)

Merlim interfere no Túnel do Tempo, e envia os cientistas para ajudar o Rei Artur na luta contra os Vikings invasores em 544. Relacionando com outras produções culturais, diria que a história em si não segue a lenda, visto que o roteiro do episódio abrange apenas uma parte muito pequena da história do rei Arthur. E também em nenhum outro filme ele lutava para reaver seu castelo. Os principais pontos da lenda são: a traição de Guinevere com Lancelot, a corrida pelo Santo Graal, o nascimento de Arthur, a relação incestuosa de Arthur com sua irmã Morgana, a ilha de Avalon, etc. Mas aqui temos que o único ponto de relação entre esse episódio e outras produções culturais a respeito, tanto livros quanto filmes, se restringem à ajuda de Merlin ao rei e ao casamento de Arthur com Guinevere, além de uma rápida citação à Távola Redonda.

28 – The Kidnappers (Os Raptores)

Os cientistas vão para o ano de 8433, mas em outro planeta, enfrentar seres alienígenas que raptam figuras históricas. Eles usam a doutora Anne, uma das técnicas do laboratório, como isca para atrair os viajantes (igualmente vultos históricos no futuro), a fim de capturá-los. Uma das discussões levantadas nos fóruns dedicados ao seriado é sobre o envolvimento amoroso/sexual entre a Dra. Ann com Doug e/ou Tony. Apesar dos rápidos beijos trocados que enuncia uma situação de tensão sexual/amorosa, o roteiro nem sequer se preocupou em abrir espaço para trocas de informações e avaliações entre os três personagens reunidos num mesmo ambiente sobre o que se passou e/ou passava em lados opostos do vórtex do Túnel do Tempo.

29 – Raiders From Outer Space (Invasores do Espaço Sideral)

Novamente os cientistas encontram alienígenas no passado da Terra, dessa vez em 1883. Como cenário de fundo, a Batalha de Cartum, ocorrida no Sudão, entre ingleses e sudaneses revoltosos. Quando se deparam com a ameaça extraterrestre no ano de 1883 concluem sem hesitação que a humanidade corre perigo e que os seres de Aristo têm, de fato, grandes chances de conquistar o planeta caso não sejam detidos. Desta forma, Tony e Doug assumem a responsabilidade de salvar o mundo. Esta interação com os eventos do passado é extremamente interessante na série, pois permite a conclusão de que o passado visitado pelas personagens precisa de seus esforços e de sua ajuda. Não lhes ocorre em nenhum momento que poderiam estar alterando de maneira catastrófica o curso da história. Doug e Tony colocam-se na posição de agentes ativos, interagem com a realidade histórica do passado sem que a consequência de seus atos tenha repercussão fora do contexto onde estão.

30 – Town of Terror (A Cidade do Terror)

Novamente no futuro, dessa vez em 1978, os cientistas se defrontam com um último mistério. Neste episódio, observamos os estereótipos e a forma maniqueísta pela qual são representados os seres alienígenas, como sendo “do mal” e com a intenção de dominar a Terra, que, contudo, será salva pela ação dos norte-americanos, que são “do bem”, e, em nosso caso, os dois protagonistas do seriado, demonstrando a associação dos estereótipos a um discurso ideológico.

Bibliografia das sinopses: OLIVEIRA, Dennison de (organizador). O Túnel do Tempo: um estudo de História e Audiovisual. Curitiba, Editora Juruá, 2010. 272 pg.